Direto do túnel do tempo: texto escrito em outubro de 2002, primeira vez que me arrisquei em prosa.
Roda-gigante
A roda girava acompanhando nossos movimentos. Eu senti suas mãos em minhas costas e me aconcheguei no seu peito. Era uma roda-anã, daquelas de interior. Nossos alunos deviam estar largando àquela hora. Nós deveríamos ter ido embora. Uma tarde inteira tomando cerveja.
Ao sair da escola ele tinha me convidado para comer caranguejos. Claro que ele sabia que eu gostava de caranguejos. Era um convite certeiro. Cidadezinha pequena. Uma rua principal, estrada movimentada, caminho para o litoral. Duas paradas depois, havia uma praça. Grande, com quadra poli-esportiva, parques e bares ao redor. Obra do prefeito atual. Pão e circo. Perguntamos por caranguejos. Ninguém tinha. Pegamos uma mesa embaixo de uma jaqueira. Bela sombra, cerveja barata e gelada.
Ele trabalhara com restaurantes. Estressante. Travestis que não podiam usar o banheiro feminino, nem o masculino. Armas em cima da mesa enquanto os donos dormiam bêbados. Largou o ramo. Resolveu-se pela física. Ser pesquisador? Isso é trabalho para uma vida inteira. E às vezes nem isso basta. Melhor ser professor.
Comemos bisteca. Eu preferiria caranguejo, mas não era segredo a minha razão de estar ali. E pra quem não tinha almoçado, estava até bom.
Ser professor é duro. As turmas estão difíceis. A sala 3 quer casar a gente. Risos. Temos até às 18h. É, se eles nos vêem...
Eu? Sempre quis ser professora. Mentira, nunca tive essa vontade. Quis ser jornalista, um tempo. Me formei em Turismo. Mas sempre amei literatura. Na hora da inscrição do vestibular, me bateu um estalo. É letras, é isso! Vou ser professora. Foi assim. E aqui estou eu. Bebendo cerveja escondida de meus alunos. Risos.
Mais cerveja. Vamos ficar bêbados. Que horas são? 15h? Ainda? Demora para eles largarem.
A praça começa a encher. 12 de outubro. Crianças por toda parte. Um parque de diversões começou a funcionar do outro lado da praça. De onde estávamos dava pra ver a roda-gigante. Quando sairmos, vamos andar de roda-gigante? Ah, eu adoraria. Faz tanto tempo que não ando. Desde que não sou mais criança. Mas tenho medo. Pois nós vamos andar nela hoje, você vai ver.
Eu via seus olhos. Sua mão segurando o cigarro. A barba por fazer. Ai, a barba por fazer. Lindo. E eu nunca tinha achado um homem bonito vestido daquele jeito. Calça de linho, cinto e sapatos sociais. Camisa de botão, já meio aberta. Lindo. Puta que pariu, enfim um homem interessante na minha vida. Será que ele lia os meus olhos? Melhor ficar quieta. Parar de olhar para ele.
Quinze para às seis. Está quase na hora. Vamos andar de roda-gigante ou não? Claro que vamos. Só a saidera. Foram oito cervejas nesta tarde. Depois a conta. Rachamos.
Saímos da mesa e fomos até o parque. Ainda preparavam a roda. Tinha que trocar as lâmpadas. 10 minutos. Fomos atrás de cervejas em lata.
Não temos. Só long neck. Serve. Pegamos duas. Voltamos a roda. Esperar.
Tudo pronto. Por favor, podemos ser os próximos? Claro. Subimos numa xícara cor-de-rosa. Eu tenho medo. Você tem medo mesmo? Sério! Vem mais pra cá.
Era pequena a roda, mas dava pra ter uma vista legal. Foram duas voltas até ele perguntar: a gente podia ficar... Nenhuma resposta. Só um beijo. Era a roda girando igual nossos lábios um sobre o outro. Eram suas mãos na minha cintura. Tudo girava pra mim.
Acabou nosso tempo. Vem pra cá, vamos ficar atrás da roda, ninguém vai nos ver. Legal. Beijos, beijos... E se nos vissem? Ah, que se dane! E mais beijos. Pausa para um cigarro, dois cigarros. E amanha, como vai ser, hein? Amanhã?!? Vai ser assim: oi professor!, oi professora! Como todos os fins de semana.
Está na hora. Vamos?
Vamos. Eu te levo até a próxima parada. Uma Kombi. Na praça desce. Outra praça. Outra cidade. Ali era adeus. Beijos e tchau. Até amanhã? Até amanhã.
Nenhum aluno nosso nos encontrou. Dia seguinte, as mesmas gracinhas dos alunos da turma 3. Professora, sabia que os opostos se atraem? Física X Literatura? Risos. Ao fundo, a voz dele na sala ao lado me lembrava de onde vinha a marca no meu pescoço.
P.s.:Obrigadapelarodagiganteeuadoreieunaumsoubemoquevocêpensa,mastudobem,
avidaehassimmesmoteadorobeijosbeijosbeijos
Busco o equilíbrio ao andar na corda bamba.
Não quero cair na rede errada.
Sem motor
Ventilador, geladeira, bomba
Broca, sirene, toque
E umas folhas insistem em balançar ao vento.
Pela estrada a fora
Sua casa é uma mentira.
Surrupio doces para te entregar
E na forma indistinta, avisto fantasia
Passeio longas noites a te procurar.
Homenagem
Inesperadamente, a moça pegou nos meus seios. No meio do bar, que aos poucos serenava o fim da noite. Atrevida, pegou de novo. Eu não resisti, enfiei a mão por baixo da sua saia, esperando o freio. Ela não reagiu, ao contrário, dizia que estava gostoso. Senti o pé do meu namorado abrindo passagem pelos meus dedos. A moça sorria. Uma confusão de pé, mão e xoxota acontecia ocultamente debaixo da mesa. Ocultamente?
Levantei-me, paguei a conta, trazendo a última garrafa de vinho debaixo do braço. Fomos andando, eu segurando com força a moça pelo quadril, arriscada que ela estava de cair. Ela enfiava a mão dentro da minha blusa, discretamente, segundo ela. Meu namorado de quando em quando metia a mão na minha bunda (ou na dela?).
Paramos no meu apartamento. Ela pediu vinho e acendeu um cigarro. Ele me pegou, arrancou minha camisa e me beijou. Larguei dele e fui para ela. Arranquei a roupa dela enquanto ele arrancava o resto da minha. Emaranhado de roupas no chão.
Ela apagou a luz. Sentei-a numa cadeira. Beijei pescoço, colo, seios. Ele brincava mais embaixo, mais ciente das coisas do que eu. Ela levantou, subitamente lúcida. Ah, não, eu não ia deixar assim, agarrei-a pelas costas, encostei-a na parede. Nessa posição, tocá-la era semelhante a me tocar, não foi difícil encaixar meus dedos na sua boceta. Meu namorado me fodia por trás e eu escutava os gemidos dela, dizia que a amava em seu ouvido. Ele gozou e caiu por baixo de nós. Os dedos dele brincavam com as duas, ela procurava minha bunda, até que, talvez satisfeita, talvez novamente lúcida, acendeu um cigarro e pediu para voltar para casa.
Vesti a roupa, ainda melada da porra dos dois. Deixamos ela na sua casa, cambaleantes.
No apartamento novamente, lembramos que ainda de manhã conversamos sobre outra mulher em nossa cama, sem saber o que minha amiga terminaria por nos oferecer. Ainda houve fôlego para, rememorando, o banheiro me ver gozar no pau dele.
Agora tenho medo dos meus desejos, vai que todos se realizam? E, pelo inusitado da situação, ainda me pergunto se tudo aconteceu assim mesmo...
::27::
27 anos e caminho nenhum.
27 anos e todos os caminhos.
Toda uma liberdade e todo um desejo
Serena no meu auge
Guardando o último pedaço,
Resguardando-me do céu e do inferno.
Sorrindo entre nuvens.
Sérgio era um cara popular. Os amigos o invejavam. Vivia sempre acompanhado. Em bem acompanhado.
Passava, à noite, com uma bela garota em seu carro. Buzinava, dava oi aos amigos. Era a eleita do dia.
Ele as levava para a sua alcova, uma pequena mas bem decorada casa. Em tudo mimava as acompanhantes. A casa estava sempre limpa e com flores nos vasos. Havia queijos e vinhos saborosos. Sua especialidade era uma tábua de frios que deliciava suas amigas.
Naquela noite Lílian era a escolhida. Ninguém acreditou quando a viram no carro de Sérgio. Lílian era o que se chamava de boa moça. Recém passara por uma desilusão: a melhor amiga lhe roubara o namorado.
E lá estava ela a caminho do ninho de Sérgio. Ela se sentia bem. Descobrira que sua personalidade era outra, queria experimentar.
Tomava um sorvete, e Sérgio estava maravilhado com a pequena e angelical boca que lambia o doce, primeiro pelos lados, até abocanhá-lo todo, aparentemente imersa no prazer do ato.
Sérgio parou o carro, entrou numa lanchonete e de lá saiu com um pacote, quase sem conseguir enxergar o caminho de tanta vontade de chegar.
Lílian entrou na casa saboreando cada pedaço. Cheirou as flores e pôs uma no cabelo. Ligou o som e escolheu Vanessa da Mata, respondendo com um “Sim” às dúvidas que restavam na cabeça de Sérgio. Jogou os sapatos longe e pulou na cama arrumada e fofa. Aceitou o vinho que Sérgio ofereceu e sua pequena boca rosada adquiriu o brilho do líquido.
Sério sorria feliz para o deslumbramento da garota. Estava cansado da futilidade e superficialidade das mulheres. Lílian o surpreendia com tanta ingenuidade e com a sinceridade com que brincava com os enfeites da cômoda.
Satisfeito, pegou os pés da menina e os beijou, submissamente. Lílian calou para sentir melhor aquele calor que subia pelas suas pernas e provocava um arrepio no local onde seu ex-namorado nunca havia se permitido tocar.
As mãos de Sério subiram até o ponto em que o pudor de Lílian disse não. Ele a deixou e ofereceu o que havia no pacote: batons garoto.
Lílian sorriu. Adorava aquele chocolate desde menina. Gostava de colocá-lo na boca até amolecer. Chupava-o, escondida, já que mais de uma vez fora censurada por adultos por chupar daquela maneira.
Deliciando-se com o batom, esqueceu das mãos de Sérgio, que chegaram onde queriam. O chocolate derreteu ao mesmo tempo que Lílian, que sentia tudo mais quente. Antes que pudesse se recuperar, Lílian sentiu algo a invadindo. E percebeu que dois espaços seus estavam ocupados. E pela mesma substância. Enquanto lambia o chocolate, Sérgio também enfiava o doce na sua xoxota virgem.
Concordo com Pessoa: tudo é ousado para quem a nada se atreve. E eu andava pouco atrevida. E achei você. E quis ousar. E ousei revisar você. Porque só assim poderia apresentá-lo. Como apresentar o que não se conhece palmo a palmo?
Por que não ser a fina flor do erotismo? Pulsando alegre em seus toques doces. Emergindo contemporânea por seu graçar antigo? Provocando libertação em teu peito jovem?
Ainda imagino teu livro não fechado. Quero ver você crescendo nas letras que escreve. Posso jogar galhos na tua lama doce. Posso ser seu bálsamo e sua cruz. Posso cruzar o deserto contigo.
Quero ver emergir você de um riacho claro. Do meu riacho.
Quero você respondendo minhas perguntas. Quero sua alma presa a minha, ao mesmo tempo liberta para chegar onde quero.
Sem sombras, sem lágrimas, apenas a água que corre clara. Apenas a minha saliva que escorre também doce.
Apenas uma mistura. De eu e você.
::Sambada::
Era uma noite de sambada. O terreiro estava
Isso é maneira de chegar para brincar, Oswaldo? A moça emenda: Eu disse pra ele que vinha, mas não ia ficar de travesseiro dele, que ele dissesse logo se podia. Oswaldo engata conversa com a conhecida que o repreendera, a filha da professora. Lembram das canetadas e beliscões. Professorinha braba.
Mas Maria, a companheira, prefere falar sobre sua vida. Eu tenho dois filhos e mãe doente. Meu filho tem 14 anos, a menina tem treze. Não posso cuidar do Oswaldo o tempo todo. Muita gente quer ajudar, mas ele não larga a pitú.
Oswaldo levanta a camisa. Mostra as marcas das três facadas que levou. Diz que vai ter revanche. Maria quer esquecer, manda ele baixar a camisa, pra que mostrar? Ela diz que o ajuda, que arruma o quartinho onde ele mora.
Chamaram ele pra ser bandeirista. Uns três grupos já. Mas ele não pode. Oswaldo mostra a cicatriz na barriga, operação de qualquer coisa grave.
Maria fala do fotógrafo que retratou seu trabalho: enquanto ela debulhava feijões e abacaxis, sentindo-se feia para fotos, o homem baixinho e gordinho apontava a câmera na direção de sua barraca, de sua mesa, de suas mãos.
Ela reclama: não gosta de estar só na festa, não conhece ninguém ali. Também ela brinca, mas é novata, além de ser de outro grupo. Oswaldo pede um cigarro.
Quando o terceiro ônibus chega, Maria o convence a voltar pra casa. Eles vão. A mesma Maria cuidando das cicatrizes do Oswaldo.
Ele diz que me ama, e se cuidar, me terá pra sempre. Mas tem que cuidar, né?
E os dois sobem no ônibus vazio.
::Nelson Rodrigues teria medo::
Só
Uma libertina nasceu ali. Uma libertina de máquina de escrever na mão. Sou agora uma mulher liberta. E fujo da grade. Quero o mais próximo do fora da lei, ilegal sou. Coroei-me rainha do ato e ritual consumado. Nelson que me perdoe, mas eu faço melhor. Ele teria inveja de mim.
Amo o desejo. Escrava estou desse teu membro intumescido. Quero o máximo, quero tudo, a vida me permite uma noite eterna. Marco minha presença na ausência alheia. Sorrio orgasmos pra quem quero. O mundo se torna total, sou esma, sou frágil, sou toda pra isso. Me toma o esquema: o grave, o cosmo. Se isso não é caminho, quero inventá-lo. Porra na boca, leite na rosa, amor no coração! amo, amo, amo. E o amor me permite ser o que sou. Amor é liberdade plena. Nunca amei como agora. Nunca fui como agora. A escrava que espera. gozo na boca. amor nos dedos. eu, eu, eu. eu sempre fui isso. Algo me esmagava: agora sou a liberdade no clitóris.
Vermelho escapa pelos poros ouço um tom abaixo da maioria sinto um grau acima e desconverso do abalo pro seu lado porque é mais fácil sintonizar quando estou frágil. Converso e gracejo mas duvido da tua culpa e comemoro as passagens longas do meu romance. Acredito no invencível descaso do teu passo, na ausência sublime da tua sede, na proximidade da ânsia. Sorrio acaso a morte chega e o amor acaba e o frio esquece meu desejo. Somos duradouros, perseguimos a força, igualamos os sonhos, mas eles são tão díspares, não convencemos. Sacrificada mudo o tom, assumo o risco, mostro-me doce e sincera já não importando seus sumiços. Enquadro-me no denso e profundo histórico das moças que escrevem e desescrevem seu caminho.
Sorrio. Tenho fome de ser melhor, tenho cores para ser diferente. Um som termina tudo.
::Um tanto livre, um tanto travada::
Ei, menino, eu te vejo. Você é o cara. Não esconde o que sente. És tão fantástico. tão de mim. E eu posso fazer de nós o que quisermos, baby. Somos soul e calma. paciência.
Garoto, não sou sua, mas sou do teu corpo.
E um instante fez.
E num dia que o inusitado imperava, você foi deus e foi tormento. E eu quis você, como nunca. Você era a fortaleza, eu era o estorvo, o que havia para desamar, porque plácida e incolor.